sexta-feira, julho 22, 2005

CONTROLE


Em uma noite vazia, com todo o universo se manifestando lá fora e aqui dentro, flagrei-me olhando as dimensões insignificantes do meu universo.

Fitei as paredes dessa casa, vi os quadros do escritório pintados pela minha mãe, os planos tão precários rabiscados em um quadro de aviso, a estrutura tão frágil e inquietante dessa família, meu mundo.

Uma vez acreditei que tudo fosse maior, sonhei voar pra longe, promover grandes projetos, conquistar poder e respeito.
Acreditei nisso tão firmemente que me pego várias vezes ao dia olhando espantada para onde estou. Como se os planos tivessem dado certo, porém totalmente ao contrário do que deveria ser conforme minha idéia de ?certo?.

Eu me pergunto se não estou apenas me adaptando ao que o mundo exigiu de mim, e matando meus sonhos pouco a pouco. Tentando me enganar como se, mesmo sabendo que o trajeto da minha vida não tenha sido traçado por mim, eu ainda esteja no controle do meu destino.

O que é controle?

Até onde não somos apenas um joguete, um boneco manipulado, que tenta em vão se livrar de suas amarras, mas que não tem a coragem de rebentar o último elo da corrente.

Sensações assim são como espasmos, raros momentos de uma inquietante insatisfação que tentamos abafar, enganar, amordaçar, para que elas se tornem cada vez menos freqüentes.

Lucidez incômoda, que tenta subverter as ?estruturas de uma ordem estabelecida?, de sujeira empurrada pra debaixo do tapete, de hábitos irracionais, de uma vida morna e sem alegria, movida apenas pelo desejo de não sei o quê.

Lutar pelos seus sonhos é fácil. Difícil é tê-los bem definidos.
Qual é o seu sonho?

Vi um comercial da Petrobrás que terminava com a seguinte chamada:
"Com o que você quer sonhar hoje?"

Sim, com o que você quer sonhar hoje? E depois que você alcançar o seu sonho, você vai começar tudo de novo?

É o medo de recomeçar, a necessidade de não enxergar que essa luta não tem fim que nos leva a tomar, ou melhor, a adiar indefinidamente decisões, atitudes...e a ir parando, parando, parando...

Momentos de inspiração, em que poderia pintar, desenhar, escrever, e que passo dormindo, pensando em problemas que deveria resolver no horário de trabalho, enquanto, no trabalho, pensando nas férias e no fim de semana, no fim de semana procurando o que fazer, atônita e sem idéias.